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Publicado por Marcelo Soares Souza em 21 de Março de 2012 licenciado sobre Creative Commons 3.0 Brasil

O "Ano do Linux no Desktop" já passou diversas vezes e o Linux ainda continua a margem em termos de uso neste nicho, apesar de ter ganho o respeito da industria e de ter entrado no imaginário popular (com as devidas proporções) como uma solução e alternativa tecnológica séria e viável aos demais.
 
E esta dificuldade de expansão não é uma questão de marketing, de manobras "sujas" da grande indústria (esta utiliza GNU/Linux a torto e a direito onde pode), as pessoas tem acesso a diversas distribuições GNU/Linux, se alguma distribuição toma um rumo que não agrada ao usuário este simplesmente muda (viva a diversidade).
 
Mas falta usabilidade, falta uma experiência de uso que acompanhe o que se tem por ai. Eu particularmente não me importo muito, 80% do meu dia é no Shell (linha de comando), interface gráfica (GUI) só para navegação na Internet, mas eu sei que a experiência de uso é capenga e defasado e que o usuário sofre.
 
Mas é simples, o técnico é técnico, o programador é programador, ele quer passar a maior parte do tempo fazendo o que é interessante para ele, ainda mais se ele não estiver sendo remunerado financeiramente (ou estiver sendo mal pago). Os aspectos relacionados a usabilidade são trabalhosos, demanda estudo e tempo para implementação, teste e refatoração, uma tarefa que é chata para o técnico, programadores e afins. Cobram do técnico, do desenvolvedor, mas dos especialista de usabilidade-interface-comportamento ou até mesmo do usuário? Alguém já deu uma "bronca" por "não esta ajudando"?
 
Anos atrás eu dei uma estudada em usabilidade, em design de interface, eu particularmente gosto do tema, não tenho "talento criativo" mas adquiri alguma noção de como fazer algo que não seja complicado demais e seja agradável ao uso diário (eu acho pelo menos). Porém é Chato, Chato, Chato e trabalhoso e meu tempo é escasso, então eu prefiro investir meu pouco tempo livre aprimorando um aspecto técnico de algo que faço do que com a interface ou experiência de uso desta.
 
Como venho de uma "linhagem" de micreiro eu adquiri o pensamento de que o "usuário é parte do problema, nunca da solução" e "usuários são o único real problema (bug) da computação" e meio que automaticamente eu não ligo para o usuário (já a alguns anos eu estou me educando para "Amar e não temer o Usuário"). E a maioria dos desenvolvedores, e técnicos, de Software Livre, mesmo que não declaradamente, pensa assim.
 
Software Livre de um movimento social transmutou em movimento técnico (Open Source) e uns poucos resistem lutando pelas ideias e ideais originais. Mas quantos destes resistentes são técnicos, desenvolvedores (aqueles que criam de fato as ferramentas para realizar estes ideais)? Quantos destes são humanistas, cientistas sociais, filósofos (e afins)? Eu conheço pessoas que professam o Software Livre e a Cultura Digital como pilhares para transformação da sociedade a muitos anos, mas nestes muitos anos, apesar do uso constante, não escreveram uma linha de código sequer. Nada contra os teóricos, os defensores e até os messias (e profetas), são importantes, mas existe uma divisão clara destes daqueles técnicos.
 
Do outro lado existe a crítica constante do usuário, "Esta interface é ruim", "Este Software (Livre) não atende minha necessidade", "Mais você é um FDP, eu doei uma grana preta (US$ 5,00) e você não melhorou em nada e nem respondeu ao meu E-Mail" e lhes garanto que não ajuda em nada.
 
Quando tu faz algo técnico de forma primorosa teus pares (outros técnicos) lhe enaltecem, lhe agradecem pela ajuda e propagam por ai tua solução técnica. Quando tu faz algo bom para o usuário, a maioria nem lhe agradece e muitos ainda acham defeitos (e fazem questão de lhe espinafrar). O engraçado é que a maioria das pessoas, que conheço, que doam dinheiro para projetos de Software Livre são de técnicos e não de usuários.
 
O técnico (nerd, geek, hackers... whatever) é um ser introspectivo por natureza e muito sensível a críticas (o estereotipo é verdade, acredite). E o que ocorre agora é que esse povo tá envelhecendo, tá formando família, esta querendo se firmar de outras formas (financeiras, emocionais e sociais) e querem segurança, então aquele tempo disponível esta rareando, então melhor reservar-lho para "confraternizações" com seus pares, em realizar atividades prazerosas que são justamente atividades técnicas.
 
Melhor do que ser espinafrado pelo usuário, ser descriminado pelos "militantes sociais" e ser humilhado por aquele grande "doador" que lhe deu suados e valorosos R$ 50,00 (US$ 25,00) uma vez na vida (mesmo que você tenha gastado dez vezes mais em tempo para lhe dar uma ferramenta livre, que mesmo que parcialmente atende a necessidade deste).
 
Mas persisto na minha crença de que o Software Livre é tecnicamente viável, economicamente sustentável e socialmente justo. Mas minha crença nos usuários não andam muito boas.

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